‘Morgiane’, ópera de 1887 de Edmond Dédé, estreou em St. Louis, agora em janeiro, na forma de concerto e versão resumida. O New York Times lembrou o sonho do compositor negro americano de ouvir sua ópera no palco. A New Yorker destacou os esforços para divulgar compositores negros, ameaçados por Donald Trump, que, segundo a revista, “coroou a si mesmo” presidente do Kennedy Center, para boicotar programas de diversidade.
O mais destacado, José Maurício Nunes Garcia, era neto de duas escravizadas e seus senhores. Seus pais nasceram livres, assim como ele. A chegada de Dom João, em 1808, transformou-o no compositor predileto do príncipe que adorava música. Sua obra foi reconhecida em Portugal, e um jornal de música de Viena classificou-o como “o maior improvisador ao teclado do mundo”.
A geração de Maurício brilhou em todas as artes, como os escultores e arquitetos Aleijadinho e mestre Valentim; o poeta Silva Alvarenga — líder da quase esquecida Inconfidência Carioca —, entre tantos homens negros. O sucesso da cantora Joaquina Maria, a Lapinha, fez Dona Maria I mudar a lei: a primeira mulher a cantar no palco do Teatro São Carlos, em Lisboa, era uma negra brasileira.
O fenômeno, ainda quase desconhecido, surge das fortunas da cana, do ouro, do café, mas a riqueza não o explica. Basta olhar para potentados que não geraram nada além de palácios dourados. Os prédios públicos do Brasil eram quase singelos: o ouro ainda brilha nas igrejas que restam, onde estavam as plateias, além dos fiéis.
Aqueles artistas viam nas artes alforria: liberdade e dignidade. Aprendiam seus ofícios entre si, em irmandades e confrarias. Maurício criou a primeira escola pública e gratuita de música em sua casa, na Rua das Marrecas, Centro do Rio. Em 1770 foi aberta a Casa de Ópera, em Vila Rica, em atividade até hoje em Ouro Preto. Em 1774, para comemorar a entrada em São Paulo de seu primeiro bispo, frei Manuel da Ressurreição, o governador Morgado de Mateus fez apresentar coro e orquestra de músicos brancos, negros e indígenas trajados a caráter segundo suas respectivas culturas. Foi quando, na Casa de Ópera criada seis anos antes no Pátio do Colégio, cantou José, um menino conhecido como “operário Bonifácio (porque trabalhava na ópera)” — nosso Patriarca da Independência.
Nada aqui diminui Edmond Dédé, nem sua “Morgiane”. Nem quer o típico prazer de colonizado de tentar superar o império vigente, quando não o copia. Entre violências e desigualdades, o importante é conhecer o Brasil e suas artes que, até hoje, triunfam mundo afora. Que percebem e expressam quem fomos, quem somos, quem poderemos ser.
Vamos nos orgulhar daquelas mulheres e homens magníficos, quase todos afrodescendentes. O Oscar para “Ainda estou aqui” prova que podemos contar com nossos artistas — aqueles que inventaram e continuam a inventar o Brasil.
*Ricardo Prado é maestro e escritor
O Globo