Disque um número, ouça um poema. O “Dial-a-Poem”, projeto criado em 1968 pelo artista americano John Giorno, permite a qualquer pessoa ouvir versos por telefone. Agora, ganha uma versão brasileira pela primeira vez na exposição “Sit in My Heart and Smile”, em cartaz na cidade de São Paulo (SP).
Como a obra é acessível a todos a qualquer momento, o colecionador Pedro Barbosa, um dos responsáveis pela iniciativa, a classifica como “uma oportunidade de descobrir um mundo da poesia e da poesia sonora que estava adormecido”.
O projeto, realizado com colaboração da fundação sem fins lucrativos Giorno Poetry Systems, é a materialização de uma filosofia que guiava o artista americano, de que a poesia deveria ser ouvida, não apenas lida.
Barbosa e a curadora Marcela Vieira reuniram 54 artistas, poetas e escritores para a versão brasileira do “Dial-a-Poem”, que está disponível há algumas semanas. Os textos podem ser ouvidos ao discar o número 0800-01-76362 de qualquer lugar do Brasil ou o (+55 11) 5039 1344 de território internacional.
Na ânsia de alcançar toda a pluralidade do país, o “Dial-a-Poem” foi além do português e incluiu poemas em línguas de povos originários.
Quem liga nos números ouve, de forma aleatória, um de 181 poemas selecionados em português, ticuna, guajajara, baniwa e alemão, lidos em voz alta por nomes como Arnaldo Antunes, Amara Moira, Ana Martins Marques, Denilson Baniwa, Eucanaã Ferraz, Fabrício Corsaletti, Gregorio Duvivier, Maria Bethânia, Nuno Ramos, Reinaldo Moraes, Roberta Estrela d’Alva, Trudruá Dorrico e Veronica Stigger.
Ao discar um desses números, o chamador é atendido imediatamente e ouve “Dial a Poem”. Então a pessoa do outro lado da linha se apresenta, diz o título do poema e começa a recitá-lo.
Toda a curadoria do projeto está ligada ao erotismo e à sensualidade –já que muito da produção artística de Giorno trafega por esse caminho–, explorando como vozes contemporâneas imaginam e reinventam o erótico por meio da linguagem e da performance. As ligações não duram nem um minuto.
Quando Carla Diacov atende, pode-se ouvir um dos poemas “Sem Título” de Rafael Iotti. Já Marília Garcia, do outro lado da linha, recita o conhecido “Casamento” de Adélia Prado. E Ismar Tirelli Neto lê o seu “A Roupa do Corpo”.
Os poemas podem ser ouvidos por telefone ou no endereço da coleção na Travessa Dona Paula —uma vila paulistana no bairro de Higienópolis que reúne cafés e galerias de arte. Por lá, uma versão do telefone-escultura de Giorno está em exposição ao lado de outros elementos que resgatam parte de sua produção artística.