Affonso Romano de Sant’Anna era não mais do um garoto de calças curtas em Juiz de Fora quando descobriu Carlos Drummond de Andrade por meio dos versos de “Poema de sete faces”: “Vai, Carlos! Ser gauche na vida”. O impacto foi definitivo. Tanto da poesia em si quanto do que ela pregava. Morto nesta terça (4/3), aos 87 anos, no Rio de Janeiro, Affonso foi poeta, escritor, ensaísta.
Gauche, nas histórias que contava e nas observações que fazia tanto sobre as artes quanto sobre a vida comum. Já não as fazia havia alguns anos. Diagnosticado com Alzheimer em 2017, morreu em casa, cercado do carinho da filha Alessandra, que cuidou, até o final, dele e da mãe, Marina Colasanti, falecida em 28 de janeiro.
O velório será nesta quarta-feira (5/3), das 11h às 14h, no Cemitério da Penitência, no Caju.
O escritor se referia ao seu livro de estreia, “O desemprego do poeta” (1962), em que afirmava seu desencanto e frustração diante do mundo. “A poesia tem o seu emprego diversificado e permanente. O poeta é que está tendo de reformular seu papel.”
Teve grande atividade também na imprensa. Atuou como cronista no Jornal do Brasil (onde conheceu Marina, com quem se casou em 1971), O Globo e Correio Braziliense. Escreveu no Estado de Minas, semanalmente, até 2014.
Família protestante
Affonso foi tomado pela poesia e logo virou à esquerda na vida – contra o que se esperava dele. Nascido em Belo Horizonte, em 27 de março de 1937, de uma família protestante de seis filhos, viveu parte da infância e juventude em Juiz de Fora. Na Zona da Mata, onde estudou no Instituto Metodista Granberry, sua família esperava que ele se tornasse pastor.
“O dia em que comuniquei aos meus pais que não ia ser mais pastor foi uma tempestade na sala de visita. Fui para um bosque e fiquei conversando com as árvores para achar o meu caminho. Quando voltei, era um outro homem”, contou o escritor ao programa “Memória e poder”, da TV Assembleia, quando completou 80 anos.
No retorno a BH, foi estudar Letras na UFMG. Aluno da Fafich, foi o orador da turma de 1962, mesmo ano em que fez sua estreia na literatura. Já envolvido com a cena cultural da cidade, colocou o vozeirão à prova no coral Madrigal Renascentista, fundado pelos maestros Isaac Karabtchevsky, Carlos Alberto Pinto Fonseca e Carlos Eduardo Prates.
Não demorou a se aproximar de seus pares: Affonso Ávila, também de BH, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, de São Paulo, Paulo Leminski, de Curitiba. Todos participaram da histórica Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em 1963, em Belo Horizonte. Naquela altura, Affonso já sabia que queria ver o mundo para além de Minas Gerais.
Conheceu o movimento hippie na Califórnia, no auge do flower power da década de 1960. Mas não foi fácil chegar lá, os militares que haviam tomado o poder, quase o impediram. “O Dops de Belo Horizonte não deixou eu ir da primeira vez. Eles alegaram que eu era comunista sem qualificação. Quase fui preso por isso – comunista sem qualificação”, disse, ainda à TV Assembleia.
Mas ele foi. Nos EUA, deu aulas na Universidade da Califórnia (UCLA). No retorno ao Brasil, fez seu doutorado pela UFMG. Seu objeto de estudo não poderia ser outro que o poeta que lhe fundiu a cabeça. Affonso foi um dos primeiros estudiosos a ir a fundo na obra drummondiana, com a tese “Drummond, um gauche no tempo”.
Mudança para o Rio
Quando se radicou no Rio de Janeiro, a partir de 1970, se tornou muito próximo de Drummond. Foi Affonso, inclusive, quem o apresentou poemas de uma desconhecida de Divinópolis. Em 9 de outubro de 1975, sob o título “De animais, santo e gente”, Drummond mostrou a seus leitores do “Jornal do Brasil” a poesia de Adélia Prado. “Só uns poucos do país literário sabem da existência desta grande poeta-mulher à beira-da-linha?”. O apadrinhamento rendeu “Bagagem” (1976), livro de estreia de Adélia.
Já no Rio, dedicou-se à docência. Depois de criar o curso de pós-graduação em Literatura da Pontifícia Universidade Católica (Puc-Rio), Affonso dirigiu o Departamento de Letras e Artes da instituição, entre 1973 e 1976. Entre 1990 e 1996, presidiu a Fundação Biblioteca Nacional, onde desenvolveu ações de incentivo à leitura, como o programa ProLer.
Diante de sua ausência física, ficamos com a perenidade de sua obra. “Que país é este?”, um dos poemas mais conhecidos de Affonso, foi publicado originalmente em uma página inteira do extinto JB. Aqui, alguns versos: “Uma coisa é um país/outra um ajuntamento/Uma coisa é um país/outra um regimento/Uma coisa é um país/outra o confinamento”.
Jornadas de Junho
“Seria interessante que se estudasse o que está ocorrendo através desse prisma. A teoria da carnavalização lida não apenas com os ritos de iniciação, com os rituais sociais, mas com essa coisa fascinante que é a mistura da festa com a guerra. E essas demonstrações das quais participamos fisicamente ou que são vistas nos jornais e tevês nos falam não apenas da festa e da guerra, mas também da nefanda barbárie e da incontornável utopia”.
Este é um trecho de crônica de Affonso Romano de Sant’Anna publicada no Estado de Minas, em 23 de junho de 2013, sobre as posteriormente chamadas Jornadas de Junho.