Depois de uma enorme ovação no “The tonight show starring Jimmy Fallon”, principal talk show americano, na quinta-feira passada (20), o ator Stephen Graham, da minissérie “Adolescência”, grande hit da Netflix em 2025, repassou a carreira para um amigo em uma frase.
— Brinquei: “30 anos de aprendizado para um sucesso da noite para o dia” — contou o ator, em entrevista exclusiva ao GLOBO, por chamada de vídeo, na manhã de terça (25) .
Aos 51 anos, o inglês de KirkPor, subúrbio de Liverpool, já fez de tudo como ator, Desde trabalhos com grandes diretores como Martin Scorsese, em “Gangues de Nova York” (2002) e “O irlandês” (2019), a franquias blockbusters como “Piratas do Caribe” (em 2011 e 2017), passando por séries renomadas como “Boardwalk empire”, da HBO. Mas é agora, como Eddie Miller — inglês da classe trabalhadora, pai de Jamie (o novato Owen Cooper), um adolescente de 13 anos acusado de matar uma colega de escola a facadas —que ele parou o mundo com uma interpretação dilacerante. Stephen, no entanto, não só atua: é dele a ideia da minissérie, que aborda temas como masculinidade tóxica e redes sociais, e ocupa, pela segunda semana consecutiva, a primeira posição do top Global e Brasil de séries faladas em inglês.
— Quis contar essa história porque li sobre uma jovem esfaqueada até a morte — diz ele, pai de um casal com a atriz Hannah Walters. —Depois, uma menina trans foi esfaqueada. Depois, mais uma garota morta da mesma forma. Três histórias separadas. Isso me atingiu profundamente, e pensei que talvez fosse algo que pudesse abordar.
Abaixo, trechos da entrevista do ator sobre a minissérie, redes sociais e o “sucesso repentino”.

O GLOBO: Que debates esperava suscitar ao criar “Adolescência”?
GRAHAM: Sendo honesto com você, não sabíamos o que aconteceria com a série. Digo isso do fundo do coração. Ela foi feita com muito amor, cuidado e respeito. Se eu e Jack (Thorne, cocriador) tivemos algum objetivo, foi apenas tentar iniciar alguma conversa entre pais e filhos. O choque de gerações é enorme. Durante os trabalhos, eu também descobri coisas como incel e manosfera. Não fazia ideia de nada disso. Então, acho que nosso intuito era apenas tentar criar uma série. No fim das contas, é um drama. E, de vez em quando, você tem a sorte e o privilégio de fazer parte de algo que vai além da arte e ganha diferentes ressonâncias.
Pensando na conversa entre pais e filhos, a partir de que idade acha aconselhável mostrar essa série para adolescentes?
Falando em Jamie… O ator Owen Cooper, de 15 anos, é um fenômeno. Como foi o processo de escalação dele?
Owen fazia parte de um grupo de teatro adorável em Manchester, mas nunca tinha feito nada profissionalmente. Não tenho 100% de certeza, mas acho que o pessoal do teatro dele pode tê-lo indicado para os testes. Sendo totalmente honesto, acredito que Owen seja um daqueles fenômenos de uma geração. Levando em conta que essa foi sua primeira experiência, ele chegou no episódio três com as falas todas decoradas! E, quando terminávamos, especialmente depois do episódio um, era muito emocionante. Os atores mais velhos ficavam dizendo: “Nossa, essa foi difícil”, “uau”. E Owen corria para o andar de cima da casa para jogar bola com o tutor. Todo mundo perguntava: “Onde está o Owen?” E ele lá em cima, brincando.
Tem falado com ele? Dá para imaginar o turbilhão desse sucesso para um menino tão jovem, que nunca havia atuado…
Mantenho contato, especialmente com os pais, pessoas incríveis. Owen conseguiu um trabalho logo depois que terminamos “Adolescência”. Um papel bem legal numa comédia da BBC. E, durante todo esse hype da série, ele está fazendo um filme com a Margot Robbie.
E sobre a sua escalação? Quando escreveu o papel de Eddie já pensava em interpretá-lo?
De forma bem egoísta, sim. Ninguém nunca me fez essa pergunta, então fico feliz em responder. Quando decidi fazer a série, pensei: “Vou garantir que tenha um grande papel para mim, né?” (risos). Quis explorar as complexidades de um pai que precisa lidar com o que seu filho fez. Havia uma profundidade real no que eu poderia trazer e no que poderíamos descobrir juntos, como um coletivo, para construir essa dinâmica familiar. Sempre foi sobre um homem e uma mulher trabalhadores cujo mundo é subitamente virado de cabeça para baixo. E minha fala favorita, de todos os episódios, resume tudo. Acho um momento lindamente escrito e montado de forma brilhante. É no final, quando a filha do meu personagem desce as escadas e digo: “Como foi que a fizemos?”. E Manda (a atriz Christine Tremarco) responde: “Do mesmo jeito que fizemos ele”. Isso é tão poderoso porque, como pais, tentamos dar aos nossos filhos o máximo de amor e orientação possível. Mas, no fim das contas, não temos controle sobre as escolhas deles. Há um sentimento de impotência nisso. Achei essa cena belissimamente escrita, porque traduz essa relação de uma forma muito verdadeira.
Por que contar essa história em plano-sequência?
Eu e o diretor Philip Barantini fizemos um filme chamado “O chef” (disponível na Apple TV e no Prime Video para aluguel) todo rodado em um único plano-sequência. Sabíamos do que éramos capazes e que tínhamos uma oportunidade de prender o público de imediato. Por causa dessa técnica, a audiência fica imersa na situação. A câmera assume um olhar voyeurístico, como se todos estivessem presos ali, vendo tudo acontecer em tempo real. À medida que os pais entendem o que está acontecendo, o público também entende. Isso imediatamente cria empatia com a família ao longo da jornada. E quando, finalmente, percebemos o que Jamie fez, o choque dos espectadores é tão grande quanto o dos personagens. Acho que foi uma boa forma de utilizar esse elemento voyeurístico e, ao mesmo tempo, prender a atenção desde o início, sem dar tempo para respirar.
Qual a sua opinião sobre a responsabilidade das plataformas de redes sociais na propagação do pensamento incel e masculinista?
Sinto que há uma linha tênue entre liberdade de expressão e discurso de ódio. Às vezes, essa defesa da liberdade de expressão é envolta em uma narrativa que faz parecer que as pessoas podem dizer absolutamente qualquer coisa sem consequências. Isso é só a minha opinião, mas talvez eu pense assim porque, apesar de parecer uma pessoa branca, sou racialmente misto. Meu avô era jamaicano. Então, já passei por certas situações na vida… Na minha infância, quando algumas pessoas descobriram que meu pai era negro, me chamaram de algumas coisas que me marcaram. Acho que hoje precisamos ter muito cuidado com a internet, porque muitas dessas coisas são ditas por pessoas que se escondem atrás de um teclado.
É a favor da proibição de celulares nas escolas?
Não sei como poderíamos regulamentar isso. Também vejo que muitos pais dão celulares aos filhos para monitorá-los e saber onde estão. Caso algo aconteça com a criança, ela pode usar o telefone. Talvez eles precisem deixar o aparelho no armário da escola ao entrar de manhã, em um lugar seguro, e pegá-lo de volta no fim das aulas. Acho que essa seria uma boa ideia. Aposto que teríamos muito mais concentração na sala de aula.
Sobre futuro, soube que seu próximo próximo projeto é “Deliver me from nowhere”, cinebiografia do Bruce Springsteen em que você interpreta o pai do músico…
Sim! Foi uma experiência incrível! Jeremy Allen White (famoso pela série “O urso” e intérprete de Bruce) é um ator excelente e um homem maravilhoso. E o próprio Bruce Springsteen…que lenda, que lenda!
Diante de todo esse sucesso, como você está se sentindo e lidando com tanta atenção?
Sabe de uma coisa? Estou muito bem. Brinquei com um amigo outro dia, quando estávamos nos Estados Unidos e eu participei do programa do Jimmy Fallon: “30 anos de aprendizado para um sucesso da noite para o dia” (risos). Trabalhei muito durante esse tempo e, para algumas pessoas, agora isso é visto como um sucesso repentino. É ótimo que a série esteja recebendo o reconhecimento que esperávamos. Mas, ao mesmo tempo, me mantenho com os pés no chão. Medito bastante. E tenho uma esposa maravilhosa, que me ajuda a ficar muito centrado. Tenho dois filhos lindos, um pai amoroso e uma família muito unida. Meus amigos e minha família são o meu mundo. Sempre foram o mais importante para mim.
Você sabe o quanto a série está provocando discussões no mundo todo, inclusive no Brasil. Uma história do interior da Inglaterra que ressoou em tantos lugares é um trabalho e tanto.