Mas a infraestrutura das cidades que margeiam o parque não tem acompanhado o crescimento do turismo. Segundo o Instituto Água e Saneamento, em Barreirinhas, a principal porta de entrada para o local, 60% dos 64 mil habitantes ainda usam fossas rudimentares, e a rede de esgoto só alcança 7% da população.
Metade do lixo é queimada e a outra metade vai para um lixão de 60 mil m² a 20 km do centro —longe dos olhos dos visitantes, mas próximo o suficiente para ameaçar o equilíbrio ambiental dos Lençóis, já que, segundo estudos, os efeitos negativos de uma estrutura dessas podem se estender por um raio de 80 a 100 km dela. Em Barreirinhas, portanto, isso inclui toda a área do parque.
Em Santo Amaro do Maranhão, outra base de visitação, a situação é pior: só 0,22% dos 14 mil habitantes são ligados à rede de esgoto, e 63% do lixo é queimado.
Em maio de 2024, Éville Karina, coordenadora de estudos sobre biodiversidade do Instituto Federal do Maranhão em Barreirinhas, mediu a qualidade da água em dois pontos do rio Preguiças, que atravessa a cidade e define os limites a leste do parque.
Tanto próximo à ponte sobre ele, recém-construída, quanto na praia do morro do Careca, as concentrações de coliformes totais eram superiores ao limite satisfatório (1.000/100 ml), chegando a 2.480/100 ml na praia —imprópria para banho, portanto.
A pesquisadora diz que a pesquisa não investigou a origem desses poluentes. “Mas é comum na região que as pessoas construam seus próprios poços e fossas”, afirma. “Em um outro estudo, avaliamos a água desses poços e concluímos que eles estão contaminados.”
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Nos arredores dos Lençóis essa situação é ainda mais crítica porque as lagoas do parque, principal motor econômico da região, são lençóis freáticos que emergem do subsolo ao serem inundados pelas chuvas do primeiro semestre.
“É um território arenoso, em que a água flui de forma subterrânea e também superficial. A poluição do lençol freático pode facilmente chegar às lagoas”, diz Leonardo Silva Soares, vice-reitor da Universidade Federal do Maranhão, a UFMA, e doutor em desenvolvimento e meio ambiente. Ele orienta um trabalho segundo o qual a bacia do rio Negro, um dos rios que fluem para o litoral atravessando os Lençóis, é o ponto de maior vulnerabilidade.
Sob reserva, fontes afirmam que já foram detectadas contaminações nas área de acesso mais restrito do parque nacional.
Longe dos olhos dos turistas, que lotam a cidade na alta temporada (entre julho e setembro), a mesma chuva que enche as lagoas também inunda Barreirinhas entre janeiro e junho, provocando mau cheiro e
evidenciando que a drenagem (uma das vertentes do saneamento básico) também é deficiente.
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