Tudo começou com uma graphic novel sobre uma menina rebelde desde a sua infância no Irã. Ela acompanhou a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi e a ascensão do regime islâmico em 1979 até se exilar na Europa. Contestava, especialmente, as regras do regime que recaem sobre as mulheres.
Essa é a história da série de HQs Persépolis, publicada na França nos anos 2000. Os quadrinhos venderam centenas de milhares de exemplares em todo o mundo e evoluíram para uma animação com o mesmo nome, lançada em 2007, vencedora do Prêmio do Júri no Festival de Cannes e indicada para o Oscar da categoria. Ambas são obras de Marjane Satrapi, escritora, quadrinista e também cineasta franco-iraniana, que morreu ontem, dia 4, aos 56 anos, em Paris.
“Marjane Satrapi morreu de tristeza, pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”, afirmou um comunicado enviado à imprensa pela família. Ripa, produtor, ator e roteirista sueco, morreu em abril do ano passado. Os dois foram parceiros na vida e no trabalho, criando juntos filmes como Paradis Paris e La Bande des Jotas.
Satrapi nasceu em 22 de novembro de 1969 em Rasht, Irã, perto do Mar Cáspio, e cresceu em Teerã. Seus pais eram esquerdistas cosmopolitas; seu pai, engenheiro, e sua mãe, estilista. Os dois enviaram a filha para a Áustria após a revolução. Foi um momento difícil – e, depois de quatro anos em Viena, ela decidiu voltar para casa. No Irã, estudou artes gráficas e teve um casamento precoce, que terminou em divórcio. Mais tarde, voltou à Europa e obteve um segundo diploma em artes, em Estrasburgo, França, antes de se mudar definitivamente para Paris.
“Se eu não fosse filha da minha mãe, essa mulher nascida em 1945, dotada de enorme potencial, movida por inúmeros sonhos, mas a quem a sociedade iraniana nunca deixou de reprimir, meu destino teria sido outro. Um ditado persa me vem à mente quando penso em seu destino: ‘Que nadador fantástico! Pena que só tinha uma banheira!’. Isso resume tudo. Essa é exatamente a minha mãe, reprimida, sufocada, contida por uma época que via as mulheres trabalhadoras de forma muito negativa. Isso sempre a incomodava”, contou Satrapi ao jornal francês Le Monde em uma entrevista de 2020.
“A revolta só é possível se você conseguir se voltar contra a pessoa responsável pela confusão. Mas o fato é que ela se conteve, com fatalismo. Então, minha mãe queria que sua filha escapasse desse destino a todo custo. Eu ainda era pequena quando ela já havia traçado o plano para a minha vida, um plano que procurei seguir à risca. Primeiro, eu tinha de ser uma mulher independente. Ela costumava me dizer: ‘Minha querida, seja o que for que você faça, não invista na sua aparência, como tantas meninas. É no seu cérebro que você precisa investir!’. O que eu entendia era: ‘Minha querida, é uma causa perdida, você é realmente muito feia, então pelo menos tente ser inteligente.’ Quando lhe confessei isso, muitos anos depois, ela me disse que eu não havia entendido nada. Mas, para incutir em mim esse espírito de independência, ela foi extremamente severa”, completou.
Assim como sua personagem na série Persépolis, ela tinha cerca de 10 anos quando o xá foi deposto. Viu de perto a ascensão dos clérigos e o horror da guerra Irã-Iraque. E foi em Paris, em 1994, que começou a refletir sobre sua experiência escrevendo Persépolis. Segundo Amelia Nierenberg e Ségolène Le Stradic, do The New York Times, ela se tornou, com a obra, expoente de um estilo de romance gráfico – influenciado por Maus, de Art Spiegelman – que combinava história política e memórias.
No ano passado, Satrapi recusou a condecoração da Legião de Honra francesa devido ao que via como “hipocrisia” do país em suas relações com o Irã, citando as políticas de visto francesas que impediam dissidentes de deixar o Irã para ir para o país europeu. “Apoiar a revolução das mulheres no Irã não pode se resumir a fotos ou discursos”, escreveu ela em uma carta às autoridades francesas em janeiro de 2025. “Quando as pessoas estão lutando pela democracia, nós devemos apoiá-las.”
PROTESTOS. Ao receber o prêmio do júri no Festival de Cannes, em 2007, Satrapi fez um discurso no qual afirmou que “mesmo que este seja um filme universal, quero dedicar este prêmio a todos os iranianos”. Ela, de fato, se tornou uma porta-voz das mulheres do Irã após o início dos protestos na República Islâmica, que começaram por conta da morte, em 2022, de Mahsa Amini, uma mulher curda iraniana de 22 anos. Ela morreu enquanto estava sob custódia por supostamente ter violado o código de vestimenta para mulheres.
Em protesto para marcar os dois anos da morte de Amini em Paris, Satrapi estava entre os manifestantes. “É muito importante que esse regime desapareça”, disse, mas ressaltou que isso não aconteceria da noite para o dia. “Acho, porém, que é muito importante manter a esperança”, completou.
A força do feminino Ganhou, em 2024, o Prêmio Princesa das Astúrias, como “símbolo do engajamento cívico liderado por mulheres”
O episódio de 2022 levou Satrapi a trabalhar em outro projeto, Mulher, Vida, Liberdade, outra obra de não ficção em quadrinhos. Ela contribuiu com alguns desenhos para o projeto e atuou como editora, organizando a participação de outros artistas, ativistas, acadêmicos e jornalistas. A obra inclui textos de Farid Vahid, cientista político da Fundação Jean-Jaurès; de Jean-Pierre Perrin, correspondente internacional do jornal Libération;e do professor Abbas Milani, historiador e diretor do departamento de Estudos Iranianos da Universidade Stanford, e arte de 17 quadrinistas iranianos, europeus e americanos (entre eles, Bahareh Akrami, Paco Roca e Winshluss).
“Até mesmo os direitos humanos básicos nos são negados”, disse ela ao New York Times sobre o governo iraniano após o lançamento do livro. “Você não tem o direito de dançar; você não tem o direito de cantar; você não tem o direito de fazer isso; você não tem o direito de fazer aquilo.”
Satrapi ganhou, em 2024, o Prêmio Princesa das Astúrias na Espanha, na categoria Comunicação e Humanidades. A organização afirmou que ela era “uma voz essencial na defesa dos direitos humanos e da liberdade” e os jurados a descreveram como “um símbolo do engajamento cívico liderado por mulheres”.
MÚLTIPLA. Seu trabalho se expandiu para além de histórias relacionadas ao Irã, incluindo Radioactive, um filme biográfico de 2019 sobre Marie Curie, a pioneira pesquisadora em radioatividade e ganhadora do Prêmio Nobel, estrelado por Rosamund Pike. Ela também escreveu vários livros infantis e outras histórias em quadrinhos, incluindo Frango com Ameixas, a história da morte de seu tio-avô, que também foi adaptada para o cinema.
Outra de suas obras, Bordados, retratava mulheres iranianas discutindo amor, sexo e homens durante o chá da tarde, evocando as memórias da autora, de sua avó e de outras mulheres que viveram experiências de casamentos malfadados, adultérios, frustrações, golpes e autoenganos.
Ambas as obras, assim como Mulher, Vida, Liberdade e a série Persépolis, também estão disponíveis no Brasil em edições da Companhia das Letras, em seu selo especialmente dedicado aos quadrinhos.
Mas Persépolis segue como sua obra mais emblemática e influente. Foi eleita um dos melhores livros do século 21 pelo New York Times. E a animação inspirada na HQ não fica atrás: é considerada uma das mais importantes dos anos 2000, ainda que tenha perdido o Oscar de 2008 para Ratatouille, produção da Pixar.
Apesar da derrota, porém, Satrapi conseguiu um feito: foi a primeira mulher indicada à premiação como diretora por uma animação. A vitória em Cannes, por sua vez, teve um significado político após o governo iraniano protestar formalmente contra a sua escolha, devido às suas críticas ao regime do país. Porém, a organização do festival defendeu a obra e o prêmio.
O visual do filme, em preto e branco, com traços simples e expressivos como os da graphic novel, é adequado ao tom confessional usado pela narradora para contar sua vida, que se mistura com a história recente de seu país, escreveu a crítica de cinema Neusa Barbosa na época do lançamento da produção. Esse recurso cria uma cumplicidade com o público, já que a protagonista revela suas emoções íntimas em cada situação enfrentada.
Sem que essa fosse sua principal intenção, o filme carrega um tom feminista. Ao contestar afirmações de professores conservadores ou tentar fugir do rígido figurino da revolução, que impôs a obrigatoriedade do xador (grande manto que cobre o corpo da cabeça aos pés, geralmente sem mangas e sem fechamento frontal), Marjane Satrapi tornase alvo dos fiscais da ortodoxia xiita – eles têm poderes para mandar adolescentes à delegacia por esse tipo de comportamento.
“Mesmo lidando com temas densos, o filme consegue ser divertido. Satrapi explicou que queria mostrar uma visão mais ampla sobre o Irã. Ao usar o nome da antiga capital do Império Persa (Persépolis) no título de sua obra, remete a uma civilização milenar, sofisticada e diversa, que contrasta com a visão reduzida do país, geralmente associada apenas à Revolução Islâmica ou ao fundamentalismo religioso”, completou Barbosa.
De O Estadão

