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Com homenagem a Orides Fontela, Flip busca superar mito da ‘poeta maldita’

Autora paulista ganha novas edições e chance de ampliar seu círculo de leitores três décadas após morte na extrema pobreza e trajetória marcada por turbulências

jornalslz Por jornalslz
19/07/2026
Com homenagem a Orides Fontela, Flip busca superar mito da ‘poeta maldita’

A poeta Orides Fontela

No início de 1996, Orides Fontela fez uma rara aparição em rede nacional. Já nos últimos anos de vida, a “poeta mais pobre do Brasil” foi apresentada ao grande público em uma reportagem do Fantástico sobre a precariedade de sua situação financeira. Com um Prêmio Jabuti no currículo, Orides sobrevivia com uma aposentadoria de R$ 423. As ameaças de despejo batiam à sua porta. Depois de quatro atropelamentos, estava com a saúde debilitada e andava apoiada em uma bengala. O livro mais recente, “Teia”, permanecia encalhado à espera de uma editora.

“A vida de mulher brasileira pobre não é mole”, disse a poeta à repórter Helena de Grammont. “Só não estou perdida porque tenho meus livros. Se não tivesse eles, aí sim não seria nada.”

Trinta anos depois, Orides volta ao centro das atenções como a homenageada da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). No mais badalado evento literário do país, que começa na quarta-feira e vai até o dia 26, o foco não estará mais nas agruras materiais que marcaram sua vida, mas na força da sua obra.

Relativamente esquecida desde a sua morte por tuberculose, em 1998, a paulista de São João da Boa Vista tem seus cinco livros de poesia relançados pela Hedra, em edições revistas e organizadas por Ieda Lebensztayn. A editora também reedita sua única biografia, “O enigma Orides”, publicado em 2015 pelo pesquisador Gustavo de Castro.

Edição para crianças

A autora ganhou ainda novas edições criadas pela Hedra. Com ilustrações de Cynthia Cruttenden e concepção editorial de Augusto Massi, “Pelos olhos de Orides” reúne alguns de seus poemas em um recorte infantojuvenil. “Conversas: escritos e entrevistas de Orides Fontela” recupera entrevistas, depoimentos e ensaios da autora, alguns inéditos em livro.

— Orides é pouco conhecida até mesmo entre o pequeno grupo de leitores de poesia — diz o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, coorganizador (com Patricia Lavelle) da antologia de textos críticos “Poesia e filosofia: homenagem a Orides Fontela” (Relicário), que está sendo relançado nesta onda de homenagens à poeta. — Da geração dela, temos nomes que furaram essa bolha, como Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski. A expectativa é que seu círculo de admiradores seja ampliado por essa Flip.

Nascida no meio operário e formada em filosofia, Orides estreou no fim dos anos 1960 com “Transposição”. Desde o início, ganhou a admiração da crítica, incluindo do “papa” Antonio Cândido, que escreveu o prefácio de seu terceiro livro, “Alba”, de 1983. Enquanto era celebrada pelo mundo acadêmico, parte do público e da cena literária estranhavam a precisão e o teor filosófico de seus versos. A autora chegou a ganhar o rótulo depreciativo de “poeta da USP”.

Na contramão de seu tempo, a poesia de Orides recusava o impulso confessional e autobiográfico. Isolada do frenesi urbano, concentrava-se em algumas imagens recorrentes, como o espelho, a estrela e o pássaro. Foi neste último que encontrou uma das metáforas mais persistentes de sua obra: um voo livre, impossível de apreender.

— Orides sempre disse que se afastava desse lugar de fala feminino porque queria ser respeitada estritamente como escritora — diz a poeta Marília Garcia, que na quarta-feira participa da mesa de abertura da Flip, “Entra furtivamente a luz”, e, no segundo dia de evento, da mesa “Ressonância Orides”. — Ela quase nunca usa a primeira pessoa do singular em sua poesia. Quando o eu aparece, é de forma indireta ou por meio de um monólogo dramático, como no poema “Coruja”, em que ela coloca o próprio bicho para falar.

Houve quem visse na poesia de Orides uma volta tardia à Geração de 45, marcada pela contenção e por uma reaproximação das formas clássicas.

— Ela estava em total descompasso com as tendências da época — lembra Paulo Henriques Britto. — Sua obra não tinha nada a ver com o coloquialismo rápido e os poemas-piada da poesia marginal. Adotava recursos formais sofisticados que muitos consideravam fora de moda

Manuscritos revistos

Amigo e antigo editor de Orides, o jornalista e pesquisador Augusto Massi supervisionou as novas edições dos cinco livros da homenageada da Flip. Como já havia três obras completas da autora (incluindo uma organizada pelo próprio Massi em 1988 e outra mais recente de Luis Dolhnikoff em 2015), optou-se por individualizar os títulos, com um novo estabelecimento do texto.

A equipe editorial comparou manuscritos e textos datilografados, incluindo originais guardados com Fernando Paixão e Milton Hatoum, e materiais que a própria Orides enviava a Massi.

— Reconhecemos Orides como uma poeta moderna e contemporânea, mas há um detalhe intrigante: não há cidade na poesia dela. Não tem rua, não tem viaduto, não tem nada do Centro de São Paulo, onde ela morou — diz Massi. — Ela soube extrair poesia de um núcleo essencial, e a política e a crônica de seu tempo aparecem ali de forma mais oculta, em camadas que o leitor precisa descobrir.

Fiel a Orides até o fim, o editor Augusto Massi manteve uma amizade difícil com a poeta ao longo dos anos. Sua personalidade instável a afastou de alguns de seus maiores apoiadores e pode ter atrapalhado o seu reconhecimento em vida. Massi, porém, discorda da fama de “autora maldita”.

— Temos uma grande dificuldade atual em lidar com contradições, mas, para Orides, o recolhimento e a sociabilidade eram complementares — diz ele. — Quando dizia “sou a poeta mais pobre do Brasil”, estava politizando sua condição. O trabalho da crítica hoje é desmistificar essa imagem de “poeta maldita” e focar na radicalidade de sua obra. Orides não queria ser domada, tampouco protegida por uma popularidade fácil.

Em uma entrevista resgatada por Gustavo de Castro em “O enigma Orides”, a autora reclamou da forma como a imprensa explorou sua pobreza à época do lançamento de “Teia”, em 1996. “Fui tratada não como poeta, mas como um caso humano”, desabafou. “Ficarei estigmatizada. Já estou cansada desse folclore.”

Diversas anedotas ajudaram a moldar o imaginário em torno da poeta, como seu hábito de falar alto no cinema, seus rompantes de agressividade e as dificuldades com o alcoolismo. Certa noite, após beber todas em um lançamento de livro, lançou pedras na janela de Antonio Candido, um de seus maiores admiradores. Viveu seus últimos anos morando de favor na Casa do Estudante e só não foi enterrada como indigente graças a uma vaquinha de amigos mais próximos.

Contra o mito

Em sua biografia sobre a poeta, Castro buscou justamente superar “o mito Orides”. O pesquisador investigou principalmente os quatro últimos anos da autora, marcados pela pobreza extrema e um mergulho possivelmente suicida na bebida. Sua conclusão, porém, é de que a miséria que a cercava não explica em nada a sua poesia.

— Quando se lê Orides, não faz a menor diferença saber o que ela viveu — diz Castro. — O sofrimento não aparece em seus livros e a maneira como ela separa esses dois universos é impressionante. Seus poemas não têm lamento, não têm reclamação. Ela é um enigma porque é um personagem difícil de classificar.

Curadora da Flip, Rita Palmeira afirma que a qualidade da obra de Orides nunca chegou a ser questionada.

— Os leitores de Orides são apaixonados por ela —diz Rita. — Tanto que o anúncio da sua escolha como autora homenageada fez um barulho danado. Essa ideia de esquecimento após a morte é relativa, já que sua poesia continuou sendo muito estudada na universidade.

Para a curadora, a escolha por uma autora menos conhecida do que homenageados anteriores reflete uma evolução do cenário da literatura brasileira. Se, em seus primórdios, o evento precisou de autores como Guimarães Rosa, Machado de Assis e Clarice Lispector para se afirmar, quase 25 anos depois já pode se dar o luxo de projetar nomes de menor apelo comercial.

— Quando a Flip começou, havia um esforço de tornar nossa literatura mais conhecida no exterior, para gerar mais traduções — diz Rita. — Agora, a homenagem a um autor significa apresentá-lo aos próprios brasileiros. E isso tem a ver com o momento vibrante da nossa literatura.

O Globo

Tags: #carlos brandão#governo do Maranhão#maranhao#stfFLAVIO DINORaimundo Cutrim
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