A carioca Eliana Alves Cruz se tornou a primeira mulher negra a ganhar o prêmio Jabuti de melhor romance literário desde que essa categoria foi instituída.
Escritoras como Marilene Felinto —destacada como revelação por “Mulheres de Tijucopapo” em 1982—, Conceição Evaristo, Geni Guimarães e Djamila Ribeiro já venceram em outros campos, mas a conquista de Alves Cruz pela trama familiar de “Meridiana” é um marco importante.
Também inédito é o que aconteceu na eleição de “livro do ano”. Pela segunda vez seguida, um dos maiores biógrafos brasileiros, Ruy Castro, saiu com a estatueta dourada. Isso nunca tinha ocorrido antes. Autores como Laurentino Gomes e Chico Buarque já levaram o prêmio máximo mais de uma vez, mas não em anos consecutivos.
Se o colunista da Folha ganhou no ano passado pelas crônicas de “O Ouvidor do Brasil”, sobre o maestro Tom Jobim, agora sai premiado por “Trincheira Tropical”, livro-reportagem de fôlego em torno da relação do povo carioca, seu tema predileto e inesgotável, com a Segunda Guerra Mundial.
Os três livros saíram pela Companhia das Letras —a última vez que um “livro do ano” do Jabuti foi publicado por outra editora foi em 2022.
Castro mesmo já havia levado o prêmio por suas biografias seminais de Mané Garrincha e Carmen Miranda, além do romance histórico “Os Perigos do Imperador”. No coquetel após a cerimônia, fãs do autor dividiam espaço com profissionais que se queixavam da vitória repetida.
Antes de continuar, é preciso lembrar como esses livros são eleitos. Um grupo de três jurados é encarregado de votar em cada uma das 23 categorias —neste ano, se abriu uma exceção para uma enquete popular no pleito dedicado a influenciadores digitais, que o advogado apelidado de Bookster recebeu das mãos do jogador de futebol Gustavo Scarpa.
O corpo de votantes é escolhido e convidado pela curadoria do Jabuti, capitaneada pelo educador Hubert Alquéres há quatro edições.
Votar, no Jabuti, significa dar uma nota a cada livro, orientada por critérios preestabelecidos. Não há deliberação posterior nem uma instância que legitime se os jurados seguiram os parâmetros —o Jabuti afirma não revisar as escolhas e garantir autonomia total do júri.
Com base nessas avaliações individuais —os jurados não sabem a identidade uns do outros—, se monta o rol de finalistas. O vencedor é quem leva a nota mais alta, e o “melhor livro do ano” é o que recebeu a nota mais alta em todas as categorias (exceto as de inovação e produção editorial).
As categorias com mais inscritos tendem a diluir mais suas notas em livros diferentes —o Jabuti não divulga quantos se inscrevem em cada uma. E quanto mais unanimidade em torno de um competidor em um campo, maior tende a ser a nota dele no arrazoado final.
Isso abre margem a certo voluntarismo dos votantes —que têm perfis muito diferentes entre si— e a certa barafunda nas escolhas finais, o que leva editores a reclamarem nos bastidores da falta de critérios mais rígidos.
O maior exemplo de estranhamento, provocando muxoxos até durante a cerimônia, foi a escolha heterodoxa do sociólogo Jessé Souza e seu livro “Por que a Esquerda Morreu?” como finalista na categoria de saúde e bem-estar. Ganhou “A Paixão pela Mentira”, do psicanalista Paulo Schiller, outro ensaio que toca em temas políticos.
É difícil falar em qualquer tendência unívoca do Jabuti quando os jurados fazem escolhas tão díspares entre as categorias. É um prêmio que reitera padrões com uma mão e estilhaça tetos de vidro com a outra.
Alguns júris priorizaram autores de fora do mercado dominante como o potiguar Luckas Iohanathan, bicampeão em quadrinhos pela editora Comix Zone. E o estreante baiano Abáz, publicado pela Senac Rio após vencer o prêmio Sesc pelo elogiado livro de contos “Massaranduba”, superou pesos-pesados de grandes editoras.
A Bahia também é casa de Ian Fraser, o melhor romancista de entretenimento, publicado pela poderosa Intrínseca, e Juliana Cajives, a melhor poeta estreante, da independente Mormaço Editorial. São escolhas que fogem do piloto automático, e ampliar a visibilidade desses autores é um mérito.
A noite também deu a primeira consagração a veteranos estimados no meio. É caso de Alberto Martins, editor e poeta de 68 anos, que publicou “Boris e Marina” pela Companhia, e Humberto Werneck, jornalista mineiro de 81 anos, melhor cronista por “Viagem ao País da Crônica”, da Tinta-da-China Brasil.

